Álbum 'Meus caros amigos', de Chico Buarque, faz 50 anos como 'best of' de artista que avançou com sinal fechado

  • 05/02/2026
(Foto: Reprodução)
Chico Buarque na foto exposta na capa do álbum 'Meus caros amigos', lançado em 1976 Orlando Abrunhosa / Reprodução ♫ MEMÓRIA – DISCOS DE 1976 ♬ Quando Chico Buarque entrou em estúdio para gravar o álbum que seria lançado em 1976 pela gravadora Philips com o título “Meus caros amigos”, o sinal ainda estava fechado para os compositores da MPB que denunciavam os horrores da ditadura militar brasileira através de letras escritas com alusões e metáforas engenhosas. Cantor e compositor revelado em 1964, projetado nacionalmente em 1966 e autoexilado em 1969, para escapar de prisão iminente, Chico tinha se tornado na década de 1970 o alvo preferencial desse governo ditatorial. O simples nome do artista nos créditos de uma composição já era motivo bastante para que os censores pusessem na letra o carimbo de “vetado”. Tanto que, em 1974, Chico teve que criar maroto pseudônimo, Julinho da Adelaide, para driblar a censura e poder incluir um samba autoral (“Acorda amor”, creditado a Julinho e a Leonel Paiva) no repertório do álbum anterior de estúdio, “Sinal fechado”, disco de intérprete, única saída possível naquele momento. “Meus caros amigos”, o álbum seguinte de 1976, marcou a retomada da discografia solo autoral do artista, que vinha de show apoteótico com Maria Bethânia, perpetuado em álbum ao vivo de 1975. E que retomada! Com repertório povoado por temas criados pelo compositor nos últimos anos para trilhas sonoras de filmes e musicais de teatro, o álbum “Meus caros amigos” completa 50 anos em 2026 como um best of do magistral compositor, visto na capa do disco (criada por Aldo Luiz) em foto de Orlando Abrunhosa. Produzido por Sérgio Carvalho (1949 – 2019), com arranjos distribuídos entre Francis Hime (maestro de sete das 10 músicas do álbum), Luiz Cláudio Ramos (que se tornaria o maestro de Chico Buarque a partir dos anos 1990) e Perinho Albuquerque (1946 – 2025), o álbum “Meus caros amigos” ombreia com o emblemático disco “Construção” (1971) – o primeiro grande título da discografia do artista na gravadora Philips – pela excelência do repertório. Assim como “Construção”, o álbum “Meus caros amigos” traz somente grandes e memoráveis canções, dignas de qualquer antologia do artista. A começar por “O que será (À flor da terra)”, tema do filme “Dona Flor e seus dois maridos” (1976), ouvida com a mais famosa das três letras em gravação feita por Chico com Milton Nascimento em andamento acelerado. Na sequência, Chico cantou “Mulheres de Atenas”, um dos hits radiofônicos do álbum. Nessa canção, escrita em parceria com o dramaturgo Augusto Boal (1931 – 2009), o tema da forçada submissão feminina – abordado sob a perspectiva da antiga sociedade grega – é veículo para o exercício de crítica ao domínio da ditadura. É como se Chico dissesse, com fina ironia, que as mulheres de Atenas eram o povo brasileiro subjugado pelo império dos militares naquele ano de 1976. A música seguinte, “Olhos nos olhos”, atravessou gerações na voz de Maria Bethânia, intérprete a quem Chico confiou à canção. Cantora de veia dramática, Bethânia deu pleno sentido teatral à letra da mulher abandonada que dá a volta por cima na imponente gravação feita pela artista para o álbum “Pássaro proibido” (1976). Contudo, o registro do autor também merece atenção pelo tom mais melancólico da interpretação, acentuado pelo arranjo das cordas orquestradas por Francis Hime e pelos sopros das flautas de Celso Woltzenlogel e Jorge Ferreira da Silva, o Jorginho. Tema da trilha sonora da peça “Calabar – O elogio da traição” (1973), composta por Chico com Ruy Guerra, “Você vai me seguir” entrou no álbum “Meus caros amigos” porque sobrou na seleção do disco de 1973 com as músicas do espetáculo. “Você vai me seguir” é a faixa menos aliciante do álbum porque a canção pede intensidade ausente no canto do compositor. Chico soa muito mais à vontade no canto do samba “Vai trabalhar, vagabundo” (1975), música-título do filme lançado pelo diretor Hugo Carvana (1937 – 2014) no ano anterior. Também gravado pelo grupo MPB4 naquele mesmo ano, no álbum “Canto dos homens” (1976), o samba “Corrente” se amarra à letra astuta e ao majestoso arranjo de Perinho Albuquerque, produtor e arranjador nunca valorizado na medida da importância que teve para a MPB dos anos 1970. O subtítulo do samba, “Este é um samba que vai pra frente”, sublinha a ironia da letra habilidosa que totaliza 16 estrofes de dois versos cada. Como Chico alerta na nota do autor escrita para o encarte do álbum “Meus caros amigos”, a ordem dos versos pode ser alterada ao gosto do ouvinte, o que embaralha o sentido. “Pra confessar que andei sambando errado / Talvez precise até tomar na cara”, cantava Chico em verso alusivo às torturas praticadas nos fétidos porões da ditadura. Então no auge, a afinada parceria de Chico com Francis Hime está representada por três obras-primas, “A noiva da cidade”, “Passaredo” e “Meu caro amigo”. Encerrada com citação da cantiga infantil “Boi da cara preta”, ouvida com coro feminino que incluía as vozes de Bebel Gilberto, Miúcha (1937 – 2018) e Olivia Hime, a melancólica canção “A noiva da cidade” tinha sido composta para ser o tema-título do filme de Alex Viany (1918 – 1992) que somente entraria em circuito em 1978. Lançada em 1975 pelo MPB4, grupo que teve a primazia de apresentar grandes músicas de Chico Buarque, “Passaredo” é música que deu o recado ambientalista quando o assunto ainda nem estava em pauta. A faixa reitera que parte da maestria do álbum “Meus caros amigos” deve ser creditada aos arranjos de Francis Hime – certeza corroborada pela orquestração do samba-choro “Meu caro amigo”. Na música que encerra o disco, com melodia de Francis, a letra aparece na forma de carta escrita por Chico e enviada ao amigo Augusto Boal, então no exílio, com notícias de um Brasil em que preciso fazer “muita careta pra engolir a transação”. O samba-choro dá nome, com o título no plural, a esse memorável álbum de 1976 em que Chico Buarque também canta “Basta um dia”, canção dramática composta para a trilha sonora da peça “Gota d’ água” (1975), escrita pelo próprio Chico com o dramaturgo Paulo Pontes (1940 – 1976) e estreada no ano anterior pela atriz Bibi Ferreira (1922 – 2019). Mesmo que reúna repertório de diversas procedências, “Meus caros amigos” é álbum que exprime coerência e unidade no conjunto das dez músicas autorais. Ouvido e analisado 50 anos depois, o disco conserva uma beleza que já se prova atemporal, ainda que várias letras tenham sido escritas sob a força das circunstâncias de época em que o sinal estava fechado para a liberdade de expressão. Capa do álbum 'Meus caros amigos', de Chico Buarque Orlando Abrunhosa com design de Aldo Luiz

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/02/05/album-meus-caros-amigos-de-chico-buarque-faz-50-anos-como-best-of-de-artista-que-avancou-com-sinal-fechado.ghtml


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